Afaste de mim este cale-se – artigo do presidente Lula

Luiz Inácio Lula da Silva: Afaste de mim este cale-se
Querem impedir que o povo escolha em quem votar?

Estou preso há mais de cem dias. Lá fora o desemprego aumenta, mais pais e mães não têm como sustentar suas famílias, e uma política absurda de preço dos combustíveis causou uma greve de caminhoneiros que desabasteceu as cidades brasileiras. Aumenta o número de pessoas queimadas ao cozinhar com álcool devido ao preço alto do gás de cozinha para as famílias pobres. A pobreza cresce, e as perspectivas econômicas do país pioram a cada dia.

Crianças brasileiras são presas separadas de suas famílias nos EUA, enquanto nosso governo se humilha para o vice-presidente americano. A Embraer, empresa de alta tecnologia construída ao longo de décadas, é vendida por um valor tão baixo que espanta até o mercado.

Um governo ilegítimo corre nos seus últimos meses para liquidar o máximo possível do patrimônio e soberania nacional que conseguir —reservas do pré-sal, gasodutos, distribuidoras de energia, petroquímica—, além de abrir a Amazônia para tropas estrangeiras. Enquanto a fome volta, a vacinação de crianças cai, parte do Judiciário luta para manter seu auxílio-moradia e, quem sabe, ganhar um aumento salarial.

Semana passada, a juíza Carolina Lebbos decidiu que não posso dar entrevistas ou gravar vídeos como pré-candidato do Partido dos Trabalhadores, o maior deste país, que me indicou para ser seu candidato à Presidência. Parece que não bastou me prender. Querem me calar.

Aqueles que não querem que eu fale, o que vocês temem que eu diga? O que está acontecendo hoje com o povo? Não querem que eu discuta soluções para este país? Depois de anos me caluniando, não querem que eu tenha o direito de falar em minha defesa?

É para isso que vocês, os poderosos sem votos e sem ideias, derrubaram uma presidente eleita, humilharam o país internacionalmente e me prenderam com uma condenação sem provas, em uma sentença que me envia para a prisão por “atos indeterminados”, após quatro anos de investigação contra mim e minha família? Fizeram tudo isso porque têm medo de eu dar entrevistas?

Lembro-me da presidente do Supremo Tribunal Federal que dizia “cala boca já morreu”. Lembro-me do Grupo Globo, que não está preocupado com esse impedimento à liberdade de imprensa —ao contrário, o comemora.

Juristas, ex-chefes de Estado de vários países do mundo e até adversários políticos reconhecem o absurdo do processo que me condenou. Eu posso estar fisicamente em uma cela, mas são os que me condenaram que estão presos à mentira que armaram. Interesses poderosos querem transformar essa situação absurda em um fato político consumado, me impedindo de disputar as eleições, contra a recomendação do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Eu já perdi três disputas presidenciais —em 1989, 1994 e 1998— e sempre respeitei os resultados, me preparando para a próxima eleição.

Eu sou candidato porque não cometi nenhum crime. Desafio os que me acusam a mostrar provas do que foi que eu fiz para estar nesta cela. Por que falam em “atos de ofício indeterminados” no lugar de apontar o que eu fiz de errado? Por que falam em apartamento “atribuído” em vez de apresentar provas de propriedade do apartamento de Guarujá, que era de uma empresa, dado como garantia bancária? Vão impedir o curso da democracia no Brasil com absurdos como esse?

Falo isso com a mesma seriedade com que disse para Michel Temer que ele não deveria embarcar em uma aventura para derrubar a presidente Dilma Rousseff, que ele iria se arrepender disso. Os maiores interessados em que eu dispute as eleições deveriam ser aqueles que não querem que eu seja presidente.

Querem me derrotar? Façam isso de forma limpa, nas urnas. Discutam propostas para o país e tenham responsabilidade, ainda mais neste momento em que as elites brasileiras namoram propostas autoritárias de gente que defende a céu aberto assassinato de seres humanos.

Todos sabem que, como presidente, exerci o diálogo. Não busquei um terceiro mandato quando tinha de rejeição só o que Temer tem hoje de aprovação. Trabalhei para que a inclusão social fosse o motor da economia e para que todos os brasileiros tivessem direito real, não só no papel, de comer, estudar e ter moradia.

Querem que as pessoas se esqueçam de que o Brasil já teve dias melhores? Querem impedir que o povo brasileiro —de quem todo o poder emana, segundo a Constituição— possa escolher em quem quer votar nas eleições de 7 de outubro?

O que temem? A volta do diálogo, do desenvolvimento, do tempo em que menos teve conflito social neste país? Quando a inclusão dos pobres fez as empresas brasileiras crescerem?

O Brasil precisa restaurar sua democracia e se libertar dos ódios que plantaram para tirar o PT do governo, implantar uma agenda de retirada dos direitos dos trabalhadores e dos aposentados e trazer de volta a exploração desenfreada dos mais pobres. O Brasil precisa se reencontrar consigo mesmo e ser feliz de novo.

Podem me prender. Podem tentar me calar. Mas eu não vou mudar esta minha fé nos brasileiros, na esperança de milhões em um futuro melhor. E eu tenho certeza de que esta fé em nós mesmos contra o complexo de vira-lata é a solução para a crise que vivemos.

Luiz Inácio Lula da Silva
Ex-presidente da República (2003-2010)

Artigo do Lula, originalmente publicado na Folha de São Paulo.

Imagens plano de saúde

Gooooooooool…é dos planos de saúde!

POR BERNARDO MELLO FRANCO 29/06/2018 06:15

Enquanto a plateia se distrai com a Copa do Mundo, os planos de saúde gritam gol. Os empresários do setor não foram à Rússia, mas receberam uma bola açucarada da ANS. No apagar das luzes do governo Temer, a agência editou normas que podem dobrar o gasto mensal dos segurados.

As mudanças foram publicadas ontem no “Diário Oficial”. Com a canetada, os planos ganharam aval para tomar mais dinheiro dos clientes. Quem ficar doente poderá ser obrigado a pagar 40% do valor dos procedimentos médicos. Além da mensalidade e dos remédios, é claro.

“Essas regras são tão abusivas que dá vontade de chorar”, desabafa Ligia Bahia, professora da UFRJ e doutora em Saúde Pública pela Fiocruz. “A agência reguladora deveria garantir que quem está doente seja atendido. O que estão fazendo é o contrário, e sem base legal”, afirma.

A ANS alega que protegeu os segurados ao estabelecer que a regra não valerá para tratamentos crônicos, como quimioterapia e hemodiálise. É uma meia verdade. Um doente com câncer não pagará a mais pela químio, mas poderá ser sobretaxado a cada vez que precisar de exames, fisioterapia ou apoio nutricional.

O mês da Copa tem sido lucrativo para os planos de saúde. No dia 5, o Senado aprovou a indicação de Rogério Scarabel Barbosa para o cargo de diretor da ANS. Ele era advogado de seguradoras antes de ganhar uma vaga na agência que deveria fiscalizá-las. O senador Randolfe Rodrigues comparou a nomeação à escolha de uma raposa para cuidar do galinheiro.

Na semana seguinte, a mesma ANS autorizou um reajuste de 10% nos planos individuais, uma goleada sobre a inflação oficial de 2,76%. O aumento chegou a ser barrado na Justiça. O desembargador Neilton dos Santos cassou a liminar na última sexta-feira, dia de Brasil x Costa Rica.

Em 2017, deputados ligados aos planos de saúde tentaram mudar a legislação para aumentar os lucros das empresas. As entidades de defesa do consumidor reagiram, e a proposta não chegou a ser votada.

Com o pacote de ontem, o governo encontrou um atalho para presentear as seguradoras sem depender da Câmara. Por mais que o lobby dos planos seja forte, os parlamentares ainda precisam do voto dos pacientes para se reeleger. Não é o caso do presidente da República.

Opção pela barbárie

A opção pelo autoritarismo e por uma forma absolutista de ação estatal tem sido a tônica da Lava-Jato

POR WADIH DAMOUS (*)

A irresponsável e ardilosa autorização dada pelo Supremo Tribunal Federal para que Moro determinasse a prisão do ex-presidente Lula, antes mesmo de esgotados os seus recursos legais contra uma decisão condenatória, vai muito além do caso concreto e coloca o Brasil na mais profunda barbárie social.

O sistema de justiça criminal brasileiro tem por base parâmetros e princípios que estabelecem regras para a ação estatal e são justamente essas regras que protegem o indivíduo contra o arbítrio do Estado. A inexistência de regras ou o desrespeito a esses pressupostos para a ação estatal é o que diferencia um regime autoritário de um democrático.

Tenho denunciado desde sempre que a opção pelo autoritarismo e por uma forma absolutista de ação estatal tem sido a tônica da Operação Lava-Jato. No entanto, o STF, que deveria ter como função a de corrigir e fazer cessar o arbítrio, tem optado, pela maioria dos seus membros, por referendá-lo. A ilusão vendida por alguns meios de comunicação e seus ventríloquos ministros é a de que essa ação se restringe somente aos processados e condenados pela Lava-Jato. Ledo engano.

Pesquisa da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, enviada ao STF, revela que pelo menos 13.887 mandados de prisão foram expedidos pelo Tribunal de Justiça paulista, após a decisão de fevereiro de 2016, que permitiu a prisão em segunda instância sem trânsito em julgado.

Da mesma forma, a restrição do habeas corpus pelo STF e STJ tem contribuído para a perpetuação de erros judiciários e injustiças. Pesquisa realizada pela FGV revelou que dos habeas corpus impetrados pelas Defensorias Públicas de todo o país entre 2008 e 2012, 66,4% têm a ordem concedida perante o STJ e 43,2% perante o STF.

Ou seja, os ministros que votaram pelo ultraje ao princípio constitucional da presunção de inocência não poderiam alegar ignorância, pois os dados estatísticos estão aí à inteira disposição deles e de suas assessorias. Quando eclodiram as trágicas rebeliões nos presídios brasileiros no início de 2017, enviei ofício à presidenta do STF questionando justamente se havia, por parte do Supremo, estudos sobre os impactos sociais e orçamentários da decisão sobre a presunção de inocência no sistema de justiça criminal. Até hoje não recebi qualquer resposta. O que torna evidente a irresponsável opção pela barbárie.

Resta claro que os expedientes do relator Edson Fachin — que desrespeitou o princípio do juiz natural — e da presidenta do STF — que se nega a pautar as ADCs sobre o tema — adotados para aprisionar o ex-presidente Lula tinham um claro e único objetivo que é o de interferir no processo político e eleitoral brasileiro para tentar banir a maior liderança popular da nossa história. Mesmo que ao custo de jogar milhares de acusados, condenados e encarcerados na mais completa barbárie social.

*Wadih Damous é deputado federal (PT-RJ)*

 Artigo originalmente publicado em O Globo, como contraponto à opinião do jornal: https://glo.bo/2jhMxne

Ricardo Lewandowski: Presunção de inocência

A presunção de inocência representa talvez a mais importante das salvaguardas

As constituições modernas surgiram na esteira das revoluções liberais do século 18 como expressão da vontade do povo soberano, veiculada por seus representantes nos parlamentos.

Desde então, revestiram-se da forma escrita para conferir rigidez aos seus comandos eis que foram concebidas como instrumentos para conter o poder absoluto dos governantes, inclusive dos magistrados.

Apesar de sua rigidez, logo se percebeu que as constituições não poderiam permanecer estáticas, pois tinham de adaptar-se à dinâmica das sociedades que pretendiam ordenar, sujeitas a permanente transformação. Se assim não fosse, seus dispositivos perderiam a eficácia, no todo ou em parte, ainda que vigorassem no papel.

Por esse motivo, passou-se a cogitar do fenômeno da mutação constitucional, que corresponde aos modos pelos quais as constituições podem sofrer alterações.

Resumem-se basicamente a dois: um formal, em que determinado preceito é modificado pelo legislador ou mediante interpretação judicial, e outro informal, no qual ele cai em desuso por não corresponder mais à realidade dos fatos.

Seja qual for a maneira como se dá a mutação do texto constitucional, este jamais poderá vulnerar os valores fundamentais que lhe dão sustentação.

A Constituição Federal de 1988 definiu tais barreiras, em seu art. 60, 4º, denominadas de cláusulas pétreas, a saber: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; e os direitos e garantias individuais.

A presunção de inocência integra a última dessas cláusulas, representando talvez a mais importante das salvaguardas do cidadão, considerado o congestionadíssimo e disfuncional sistema judiciário brasileiro, no bojo do qual tramitam atualmente cerca de 100 milhões de processos a cargo de pouco mais de 16 mil juízes, obrigados a cumprir metas de produtividade pelo Conselho Nacional de Justiça.

Salta aos olhos que em tal sistema o qual, de resto, convive com a intolerável existência de aproximadamente 700 mil presos, encarcerados em condições sub-humanas, dos quais 40% são provisórios multiplica-se exponencialmente a possibilidade do cometimento de erros judiciais por magistrados de primeira e segunda instâncias.

Daí a relevância da presunção de inocência, concebida pelos constituintes originários no art. 5º, LVII, da Constituição em vigor, com a seguinte dicção: ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença criminal condenatória, o que subentende decisão final dos tribunais superiores.

Afigura-se até compreensível que alguns magistrados queiram flexibilizar essa tradicional garantia para combater a corrupção endêmica que assola o país.

Nem sempre emprestam, todavia, a mesma ênfase a outros problemas igualmente graves, como o inadmissível crescimento da exclusão social, o lamentável avanço do desemprego, o inaceitável sucateamento da saúde pública e o deplorável esfacelamento da educação estatal, para citar apenas alguns exemplos.

Mesmo aos deputados e senadores é vedado, ainda que no exercício do poder constituinte derivado do qual são investidos, extinguir ou minimizar a presunção de inocência.

Com maior razão não é dado aos juízes fazê-lo por meio da estreita via da interpretação, pois esbarrariam nos intransponíveis obstáculos das cláusulas pétreas, verdadeiros pilares de nossas instituições democráticas.

RICARDO LEWANDOWSKI é professor titular de teoria do Estado da Faculdade de Direito da USPe ministro do Supremo Tribunal Federal

Resistência ao Estado Polícial

Em busca de esperança e equilíbrio: o bom jornalismo questiona o estado policial

Em artigo com o título Nem esperança nem equilíbrio, a jornalista Paula Cesarino Costa, a ombudswoman do jornal Folha de São Paulo, uma espécie de ouvidora independente da publicação, pratica o bom jornalismo e demonstra a carência de profissionalismo e responsabilidade nas coberturas das operações relacionadas ao combate à corrupção que inundam as manchetes da imprensa. Para ela, “é preciso tirar do chamado piloto automático a cobertura das operações policiais, de seus agentes e de seus métodos.”

“A imprensa precisa estar preparada para não ser apenas reprodutor de informações passadas por procuradores e policiais, por vezes de maneira incompleta ou manipuladora.”

Em sua coluna, Paula faz uma retrospectiva das ações policiais nas universidades brasileiras, aponta que “a ocorrência frequente de operações policiais em ambiente antes banhado em aura de superioridade moral obriga a maior reflexão” e, enquanto reconhece que “nenhuma instituição está a salvo de irregularidades”, coloca na pauta a banalização das prisões temporárias e a falta de justificativas para as conduções coercitivas.

“Em um país com a cultura de corrupção arraigada, a presunção da inocência por vezes parece deixada de lado.”

A ombudswoman põe em evidência a cobrança por uma abordagem mais abrangente e responsável dessas operações policiais que deveriam ser analisadas “também por eventuais inconsistências, arbitrariedades, objetivos políticos” para, em seguida, chamar à responsabilidade: “A imprensa não pode embarcar no clima que domina parcela da sociedade brasileira de acreditar que todos são corruptos, até que provem não sê-lo.” 

Num texto que deveria ser referenciado nas escolas de comunicação (e em cursos de reciclagens que muitos deveriam fazer), a experiente jornalista é taxativa ao cobrar que “é preciso investigação própria e uma narrativa crítica, fundamentada em fatos e equilibrada” e finaliza problematizando a dinâmica de condenações sumárias e propondo um debate entre leitores e jornalistas “na tentativa de refletir sobre a gravidade do momento que o país vive.” Isso sim é bom jornalismo.

Por Renam Brandão

Lula na Uerj: caravana da esperança emociona o Rio

Por Bepe Damasco

O ex-presidente Lula fechou com chave de ouro seu périplo pelo estado do Rio de Janeiro na noite desta sexta-feira, 8 de dezembro. Diante de uma concha acústica da Uerj superlotada, Lula brindou os estudantes, professores, parlamentares, sindicalistas e a militância presente com um discurso rico em conteúdo político e propostas para o Brasil, semeando esperanças.

Ele alertou que o povo ainda se sente anestesiado diante da destruição de seus direitos pelo governo golpista, desafiou a Lava Jato a encontrar um centavo ilegal seu, cobrou um pedido público de desculpas a ele “quando isso tudo terminar”, falou de seu projeto de federalizar o ensino médio e avisou para o delírio da plateia: “vou disputar e ganhar as eleições.”

Em sua fala, o deputado Wadih Damous chamou a atenção para o desafio colocado para os democratas e para a esquerda de garantir o direito de Lula se candidatar a presidente, enfrentando e derrotando as atrocidades jurídicas cometidas pela Lava Jato, para tirá-lo do páreo. Sobre o drama vivido pela Uerj, o deputado foi enfático: “Vamos até o fim nesta luta para recuperar a dignidade da Uerj. Eu sou filho da casa. Aqui, com muito orgulho, fiz o meu curso de direito. O descalabro de hoje é resultado da ação da quadrilha que governa o Rio.”

– Precisamos ter claro também que o sistema de justiça está na linha de frente do fascismo no Brasil. Hoje mesmo durante ato em frente à Petrobras, enquanto nas dependências da empresa o juiz fascista Moro participava de uma solenidade, eu disse que ele teima em se manter em silêncio sobre as graves denúncias de Tacla Duran. Não tem problema, nós vamos atrás deles e haveremos de pôr no banco dos réus a turma da Lava Jato de Curitiba.

Fotos:

Grande ato de encerramento da caravana Lula Pelo Brasil no Espírito Santo e Rio de Janeiro na UERJ. #LulaPeloBrasil #LulaPeloRiodeJaneiro

Fotos Ricardo Stuckert, Pérola Baqueiro e Renam Brandão

Gestão pública golpista em favor do trabalho escravo está sob a mira do MPF/DF

A escandalosa Portaria que altera os mecanismos de fiscalização e combate ao trabalho escravo, dentre outros absurdos, pode render, ao atual ministro do Trabalho Ronaldo Nogueira, uma ação judicial por improbidade. Segundo o Ministério Público Federal do Distrito Federal, o ministro violou os princípios da moralidade pública e administrativa, impessoalidade, legalidade, eficiência, publicidade, interesse público. Além disso, o ministro está sendo acusado por ofensa à dignidade humana.
 
Outro dado alarmante, que reforça a denúncia quanto à gestão orientada ao favorecimento do trabalho escravo, está a grave diminuição das operações de fiscalização promovidas pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM). Segundo dados do MPF, em 2015 foram realizadas 155 operações; em 2016 106 e apenas 18 em 2017. Segundo a ação do MPF, o ministro deixou de fazer repasses financeiros para realização das operações de “forma omissa e deliberada”.
 
Além disso, procuradores apontam o esvaziamento das discussões da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e a proibição da divulgação da chamada lista suja do trabalho escravo como fatores que reforçam a necessidade da ação contra o ministro Nogueira.
Com informações da Assessoria de Imprensa do MPF/DF e Conjur
 

Leia mais aqui: https://www.conjur.com.br/2017-dez-07/mpf-aciona-justica-ministro-trabalho-improbidade

Médicos das clínicas da família do Rio estão em greve desde de 26 de outubro

*Assessoria de Comunicação do Mandato Wadih Damous

Seria cômico, se não fosse trágico. O prefeito que se elegeu com a promessa de cuidar das pessoas deixa à míngua as unidades de saúde do município do Rio, especialmente as clínicas da família, que são voltadas para a atenção básica de saúde. Os médicos dessas unidades estão em greve desde o dia 26 de outubro contra o atraso sistemático no pagamento dos salários e a falta de insumos e medicamentos. Outras categorias, como enfermeiros e psicólogos, também aderiram à paralisação.

 Antes da deflagração da movimento, a categoria chegou a ser recebida pelo secretário de Saúde, Marco Antonio Matos, que alegou, além de insuficiência orçamentária para cobrir os gastos , o  contingenciamento por parte da Secretaria de Fazenda de 540 milhões de reais.
 
Segundo a médica Valeska Antunes, a Keka, uma das lideranças do movimento, cerca de 1.300 médicos aderiram à greve. Ela lembra que o problema do atraso dos salários, que começou em fevereiro, se agravou a partir de agosto. Em algumas OS, por exemplo, os salários de setembro só foram pagos na última semana de outubro. A maioria das OS vem realizando pagamentos parciais. Há casos mais graves, como nas três OS cujos profissionais nada receberam até agora.
 
 

Valeska Antunes em ato dos servidores da atenção básica do Rio

 – Em torno de 73% da lista de medicamentos importantes estão em falta. Isso nos obriga a usar medicamentos de segunda opção. E não é menos grave o problema dos insumos. Várias unidades estão sem gaze e ataduras. Também estão em falta papel e demais materiais de escritório, e até produtos de limpeza – denuncia Keka.
 
Entre as reivindicações dos médicos, estão a recomposição do orçamento da saúde, a definição de um calendário de pagamento dos salários, a reintegração de 140 agentes comunitários de saúde  demitidos, nenhuma demissão a mais, a normalização urgente do estoque de insumos e medicamentos, além da criação de uma mesa de negociação permanente que envolva a prefeitura, as OS e os 
profissionais de saúde.

Assembleia dos médicos atenção básica do município do Rio, mais de 40% da categoria presente

 
Os grevistas, além de cumprirem a obrigação legal de manter no trabalho 30% dos servidores, vão além, realizando atividades da greve nas comunidades.  O aceno feito aos médicos em greve, segundo o qual eles seriam recebidos pelo prefeito, ainda não se confirmou. E, para se ter uma ideia do descaso da prefeitura em relação a um problema que afeta a saúde de centenas de milhares de pessoas, o
Executivo municipal não mandou representação numa reunião com as partes convocada pelo Ministério Público do Trabalho, no dia 14 passado.
 
Lotada no Consultório de Rua, equipe de saúde da família que atende à população de rua, Valeska vive cotidianamente o drama da falta de medicamentos : ” Eu não tenho um anticoncepcional injetável para aplicar nas pessoas”, lamenta.  

A história de Margarida

A história de Margarida – Autor desconhecido

Margarida é agricultora.
Veio pra Rondônia atrás de um pedaço de terra.
Achou terras devolutas e ocupou um pedaço, com mais 52 famílias.
Viveu lá por 7 anos.
Plantou, colheu, criou boi, porcos, galinhas.
Nesse meio tempo, as terras de Rondônia valorizaram muito – a soja subia do mato grosso e o preço do hectare aumentou quase 30 vezes.
Com a área limpa e o preço alto, logo apareceram os antigos donos, que já não tinham mais direitos.
Mas no norte, direito e dinheiro andam de mãos dadas.
O despejo de Margarida não tardou e foi violento.
Desesperada e deprimida, sem ter pra onde ir, sofreu 2 infartos seguidos de um câncer.
Resolveu lutar e voltar a ocupar as terras públicas que eram dela.
Foi recebida por pistoleiros do fazendeiro.
Os companheiros reagiram e houve conflito, ficando um ferido de cada lado.
Na justiça, foi acusada de formação quadrilha e lesão corporal.
Pena de 9 anos e 10 meses.
Está na penitenciária feminina de Vilhena.
Hoje chegou a sua tornozeleira.

Margarida continuará na luta.
Não desistirá, apesar de tudo.
No fim, chorei, chorei e chorei. Não há como não chorar quando a gente encontra pessoas nesse nível de sinceridade. Essa é a lição que a vida me deu hoje.
Vamos em frente, ainda temos um país pra construir. #amazoniaocupada

AUTOR DESCONHECIDO

Coisa de branco, até quando? – Por Elisa Lucinda

Coisa de branco, até quando?

Escroto, consciente, ativo, legitimado, estrutural, septicêmico em todos os órgãos da nação, o racismo de William Waack não é só dele. Essa é a pior notícia. “Coisa de preto” é subtexto corrente na mente de grande parte de uma sociedade criada sob os parâmetros da Casa Grande. O diabólico plano que começou com tráfico, tortura e assassinato do povo negro e que durou quatrocentos anos, é mais nefasto e homicida do que os cinco ou seis anos do holocausto judeu e essa dor a humanidade respeita mais. Não estou dizendo que uma dor é menor do que a outra. Mas afirmo que o holocausto da escravidão negra continua até hoje e não comove nossa sociedade. Não importa, em geral, a quantidade de negros sem nome, sem sobrenome nobre que é assassinada diuturnamente nas favelas e periferias deste país. Ainda rola no imaginário brasileiro a ideia obsoleta de que “preto bom é o de alma branca”, é o sem voz, e há neste imaginário uma desvalorização da etnia negra como se houvesse para isso alguma defesa científica que apontasse no DNA de uma raça sua propensão à sub-humanidade.

O que impressiona muito no vídeo do Willian é sua falta de conflito com o tema, seu conforto escancarado e muito bem acomodado dentro de sua convicção. Quando a Globo que, felizmente, com muita rapidez, prontamente se posicionou repudiando e afastando o jornalista, afirma que vai pedir esclarecimentos dos fatos dá vontade de ser uma mosquinha na cabeça deste profissional para ver qual será o melhor argumento nos bastidores dessa saída. A situação é indefensável. Não falou sem querer, não estava nervoso. Repito: trata-se de uma convicção. Absolutamente consciente e levemente temeroso de que sua fala pudesse comprometê-lo, ele, textualmente, quase evita falar abertamente: “Tá buzinando por quê? Ô seu merda do cacete! Deve ser um… Não vou nem falar quem. Eu sei quem é… Você sabe quem é né?” Mas não resistiu. Saiu. Pulou da boca. Pensa assim. Concorda com o racismo. É porta voz dele. Estamos diante de um vazamento e por ele podemos supor quantas dessas atitudes não chegam a público e fazem a graça de muitos bastidores. Não seria leviano de minha parte afirmar que essa não é uma atitude isolada deste jornalista. Um detector de discriminação racial afinado talvez não tivesse dificuldade em encontrar na educação, dele e de sua família, a ideologia revelada no patético vídeo gravado em frente à Casa Branca. Ele estava nos Estados Unidos, ele falava português, ele estava em seu “camarim” e não imaginou que a máscara Waack estava sendo retirada antes do público deixar o teatro. Sou atriz, vivo no teatro, e sei que se o público por algum motivo avista o truque, a ponta da carta escondida sob o manto do mágico, não há outra saída para o artista se não render-se à verdade. Já era. O público viu. Fodeu. É melhor admitir. Flagrantes são inegáveis. Qualquer tentativa de desqualificar a verdade flagrante é constrangedoramente impotente.

O que está em jogo aqui é como deter o escravagismo moderno, esse que foi trazido através da linguagem das escrotíssimas expressões que destroem a auto estima do povo negro a cada minuto, e que vão mantendo a obra da escravidão na cabeça de jovens brancos, de crianças brancas, em pleno 2017. A semente do mal é reproduzida em todos os lugares, inclusive nos jornalismos, inclusive nas ficções. Sou jornalista também de formação, e sei da responsabilidade pública que temos com a informação, sei do poder de influência da palavra jornalística na formação de opiniões. Diante disso numa democracia, ter um jornalista que apresenta um jornal importante numa emissora que alcança milhões de espectadores diariamente, defendendo posturas racistas, expondo-se inclusive judicialmente a um processo, aponta para uma demissão sumária deste profissional. Não vejo outra saída. Para mim é tão grave quanto um médico que não atende um paciente preto e pobre na emergência. Para William Waack a vida do preto, o pensamento do preto, a atitude do preto, os direitos do preto são menores e tudo nele vale menos. Está entranhado em seu DNA cultural branco e dominador tal aberração intelectual. Sua ignorância é sofisticadamente tosca, uma vez que ocupa um cargo nobre na tele informação. E essa ignorância é tão sofisticada quanto perniciosa, representa um pensamento vigente que raramente tem coragem de mostrar a cara, de sair do armário. Mas é este pensamento que gera a atitude prática de fechar portas, e de provocar em nós, em nossas organizações civis e nas leis, a feliz estratégia dos sistemas de cotas. Quando Cazuza diz que a burguesia fede é a isso que ele se refere. Há uma hipocrisia católica, disfarçada de caridosa, ornada dos aparentes bons costumes, mas que chafurda na lama tóxica de seus preconceitos e na sua luta pela preservação das senzalas, dos quartos de despejos e da persistência variada das chibatas. Presídios, quartos de empregadas, entulhos das favelas e periferias, tudo têm como modelo os porões da escravidão.

Eu teria vergonha de ensinar racismo aos meus filhos, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista em meu local de trabalho, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista sendo brasileira e estando trabalhando em terras estrangeiras, William não tem. De usar a minha língua contra o povo que construiu a minha nação, William não tem. E por isso representa uma vergonha para o povo brasileiro. Sua declaração bate na cara dos negros que labutam para o sucesso da história desse país e da empresa que ele trabalha; sua declaração é um acinte, um achincalhe no talento de grandes atores negros que deram e dão sua arte à teledramaturgia brasileira contribuindo para um sucesso de público que atravessa décadas. Sua declaração atinge também em cheio a consciência de brancos a quem ele não representa, os constrange, os convoca a limpar a própria barra. Puni-lo com delito o torna naturalmente afastado da emissora. Se a Rede Globo não quer compactuar com uma atitude discriminatória não pode ter em seus quadros quem pensa diferente disso, uma vez que tal quesito está espalhado em todos os conteúdos de sua programação. Neste momento, estou fazendo a campanha da ONU chamada Vidas Negras. Os números são alarmantes, perdemos grandes exércitos de meninos que saem da escola para o crime e, entre estes, milhares são assassinados sendo inocentes, só por serem negros. E só. Por valerem menos.

Mas a tragédia só se realiza, só chega a virar sangue, a virar tiro de fuzil, só chega a matar depois de se consolidar na mente de muita gente, e muita gente que manda neste país. É este jogo que nós temos que desmontar. Quando se diz “coisa de preto” como sinônimo de inferior ou ruim, no fundo estamos produzindo um conteúdo que dará autorização para matar. William Waack não é o único a pensar assim, é isso que o vídeo veio nos revelar. É coisa de branco e aos bons brancos deve envergonhar. O assunto está bombando. A questão racial no novo filme de Daniela Thomas vai ser assunto nessa sexta no Pedro Bial. Não dá mais pra segurar . O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está.

Texto de Elisa Lucinda sobre o episódio de racismo envolvendo Willian Wack. Veja o post original aqui.