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Bolsonaro condenado!

Bolsonaro perdeu novamente! Foi condenado por declarações homofóbicas!

Essa é uma grande vitória em tempos de intolerância e retrocesso.

O Grupo Diversidade Niterói (GDN) segue fazendo um bom trabalho em Niterói, contribuindo para a causa geral da esquerda.
Em 2015, após 4 anos de batalha de judicial, o GDN e todo o movimento LGBT em parceria com o mandato Leonardo Giordano, conseguiu uma vitória: uma sentença que condenou Jair Bolsonaro a indenizar danos morais coletivos, no valor de 150 mil reais, pelas atrocidades e declarações homofóbicas proferidas no programa CQC, em março e abril de 2011.

O pedido das associações autoras da ação civil pública número 0115411-06.2011.8.19.0001, GDN, Grupo Arco Íris e CaboFree era para que a quantia fosse revertida para o Fundo de Direitos Difusos, onde poderia ser aplicada em políticas de combate à LGBTfobia.

Jair Bolsonaro recorreu ao Tribunal de Justiça contra essa decisão, na sua primeira condenação judicial, alegando ter imunidade parlamentar e o direito à liberdade de expressão. Sua apelação foi julgada nesta semana, 8/11, pela 6a Câmara Cível e foi rejeitada.

A comovente Balada de Gisberta

Faz pouco mais de dez anos que Portugal se deparou com as chagas da intolerância e do ódio da violência transfóbica. Foi preciso que 14 adolescentes da cidade do Porto torturassem por dois dias a brasileira Gisberta, nascida Gilberto Salce Júnior, amarrassem seu corpo a um pedaço de madeira e a jogassem num fosso com água. Ela tinha 46 anos.

Já o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país. Leia o artigo do escritor Patrick Mariano, especial para o Viomundo que trata de intolerância.

 

Patrick Mariano, especial para o Viomundo

Foi o português Pedro Abrunhosa quem deu a Bethânia a comovente canção Balada de Gisberta.

Faz pouco mais de dez anos que Portugal se deparou com as chagas da intolerância e do ódio da violência homofóbica. Foi preciso que 14 adolescentes da cidade do Porto torturassem por dois dias a brasileira Gisberta, nascida Gilberto Salce Júnior, amarrassem seu corpo a um pedaço de madeira e a jogassem num fosso com água. Ela tinha 46 anos.

O crime chocou o país que, aos poucos, com o desenrolar do caso, foi se dando conta da existência de muitas Gisbertas e do drama pelo qual passa a população transgênero. Os adolescentes receberam penas pequenas porque a justiça do Porto entendeu que quem a matou foi o afogamento e não a tortura e as agressões que duraram incontáveis horas.

Amarrada a um pedaço de madeira e arremessada a um poço, como um Jesus moderno crucificado, sua morte serviu para que Portugal passasse a adotar leis progressistas nesta temática e facilitasse o reconhecimento da orientação sexual.

Disse Abrunhosa:

“Apagaram-se as luzes/É o futuro que parte.

Escrevi o desejo, corações que já esqueci, com sedas matei e com ferros morri”.

Muitas vezes a afirmação ou a declaração de direitos só se torna possível após grandes traumas humanos. Expiação, solidariedade, indignação e comoção são sentimentos que tragédias podem despertam nas pessoas. O caso português e a poesia de Abrunhosa refletem bem isso e as leis lusitanas tentam, ao menos, compensar a triste sentença da brasileira.

Preocupação maior, no entanto, acontece quando até mesmo diante de tragédias cotidianas o tecido social não reage. Anestesia. Naturalidade, insensibilidade e aceitação são um pouco o que se vê por aqui, dez anos após a triste balada de Gisberta.

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país, de acordo com a pesquisa da organização não governamental Transgender Europe (TGEU), rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero.

Relatório sobre a Violência Homofóbica no Brasil, de 2012, relata que o serviço Disque 100 recebeu 3.084 denúncias de violações relacionadas à população LGBT referentes a 4.851 vítimas, com aumento de 166% em relação ao ano anterior.

A atriz Viviany Beleboni, de 27 anos, crucificou-se na 19ª Parada Gay de São Paulo, em 2015, para denunciar a violência homofóbica que mata e fere.

A imagem chocou setores conservadores religiosos, tendo, inclusive a Associação das Igrejas Evangélicas de São Paulo representado ao Ministério Público contra Viviany com base no artigo 208 do Código Penal (ultraje, impedimento ou perturbação de culto religioso).

A representação fez com que a atriz tivesse que prestar depoimento na Polícia Civil para explicar que se tratava de uma performance para denunciar esses números acintosos que acabei de mencionar.

Depois do episódio da Parada Gay, ela foi agredida duas vezes na capital paulista por homens em bando que atacavam principalmente o seu rosto. A última agressão que sofreu foi na última segunda-feira, 11 de julho de 2016.

O que choca é que uma encenação cause mais indignação e espanto do que assassinatos, espancamentos, preconceitos e violências em razão da orientação sexual de pessoas indefesas.

No Congresso, a bancada evangélica contribuiu decisivamente para derrubar a primeira mulher eleita presidenta do Brasil e aprovar leis de claro conteúdo machista, misógino e homofóbico; alguns dos seus integrantes fazem apologia ao estupro em pleno salão da verde da Câmara.

Esses dias um deputado do Distrito Federal chamou a presidenta Dilma Rousseff de vagabunda e mandou que ela fosse embora do país.

Tento, com pesar, imaginar as frases que os agressores de Gisberta e Viviani proferiram no momento das agressões. Dentre elas, com certeza deve figurar algumas das palavras ditas por parlamentares à luz do dia, em sessões públicas, pagas com o meu e o seu dinheiro.

Triste constatar que a distância entre aqueles que assassinaram a brasileira no Porto e esses que bradam covardemente de tribunas públicas é bem menor do que imaginamos. O ódio é o mesmo, a covardia também. “E a distância até o fundo é tão pequena. No fundo, é tão pequena, a queda. E o amor é tão longe. O amor é tão longe. E a dor é tão perto”.

Patrick Mariano é escritor.