A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) desde o dia 27 de julho realiza caravana que percorrerá mais de quatro mil quilômetros para denunciar a volta da fome no Brasil. O roteiro começou em Caetés (PE) e passou por Feira de Santana (BA), Guararema (SP), Curitiba e chegou a Brasília no dia 7 de agosto para denunciar aos poderes públicos a situação da fome no Brasil.

O Brasil assumiu uma série de compromissos com a Organização das Nações Unidas (ONU) — entre eles, a segurança alimentar, uma das metas da Agenda 2030, e a redução da fome e da pobreza, um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que o país atingiu em 2015.

O país saiu da lista da fome em 2014, quando divulgado os índices da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), pesquisa realizada a cada cinco anos. No entanto, nos últimos três anos, a tendência de queda da pobreza no país se reverteu. Em 2017, o número de pessoas que estavam em extrema pobreza chegou aos mesmos parâmetros de 2005.

O nefasto fruto do golpe parlamentar de 2016 – com seus cortes em programas sociais, precarização do trabalho, congelamento dos gastos em educação e saúde elevou de uma forma muito rápida o empobrecimento ao extremo – é a volta da fome.

A caravana é um importante exercício de cidadania que revela a altivez de milhares de trabalhadores rurais, pequenos agricultores, pesquisadores e movimentos sociais que fazem da indignação, ação política, da injustiça, um grito de denúncia e da solidariedade, o combustível de mobilização da militância. A escolha de Caetés, terra de nascimento do ex-presidente Lula, não foi mera casualidade.

Em Curitiba, a Caravana Semiárido Contra a Fome levou o abraço de solidariedade ao ex-presidente e lembrou que foram as políticas de Lula para o nordeste que fez com que o Brasil passasse a ser exemplo mundial de combate à fome.

A chegada da Caravana à Brasília se soma a outras relevantes ações políticas em defesa da liberdade e da candidatura de Lula à presidência: a greve de fome de sete lideranças de movimentos sociais, o dia do Basta e o início da marcha do MST, ambos no dia 10 de agosto. 

Em carta enviada ontem, Jaime Amorim, dirigente nacional do MST, relatou o sofrimento pelo qual passa o seu corpo, mas também falou em esperança e compromisso. Jaime se refere a esse clima de mobilização crescente que pude ver já no Festival Lula Livre, no Rio de Janeiro, e em outras manifestações e reuniões públicas de que tenho participado.

Ao reler Josué de Castro é possível encontrar muitas semelhanças entre a sua luta contra a fome e a trajetória de Lula. Josué costumava falar que não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade que travou conhecimento com o fenômeno da fome: “A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife – Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne”.

Lula tem uma frase parecida, mas a tirou da própria pele: “Somente quem já passou fome sabe o que é acordar de noite com fome. Eu coloquei o combate à fome como uma obsessão na minha vida”.

Em maio de 2010, Lula foi condecorado pela Organização das Nações Unidas – ONU, com o título de “Campeão Mundial na Luta Contra a Fome”, entregue a lideranças mundiais que se destacaram em combater a falta de alimentos no mundo.

Dois brasileiros, dois gigantes na história. Dois pernambucanos que colocaram a vida em defesa de um causa. Josué teve seus direitos políticos cassados pela ditadura militar de 1964 e foi obrigado a se exilar. Lula se encontra preso por uma farsa jurídica montada exclusivamente para tentar retirá-lo das eleições deste ano.

De certa forma, dia 15 será o encontro desses brasis que insistem e teimam em clamar por justiça e igualdade. A chegada da marcha do MST, a coragem desses trabalhadores em greve de fome, a caravana Contra a Fome e o registro da candidatura de Lula no TSE são acontecimentos políticos de grandeza. Daqueles que nos fazem redobrar a certeza de que esse Brasil tem jeito e que a hora é agora!

 

Publicado originalmente em Diário do Centro do Mundo

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Wadih Damous é advogado e deputado federal. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro entre 2007 e 2012. Presidiu a Comissão da Verdade do Rio e a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB. Presidiu Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UERJ e, como advogado, atuou e defendeu os trabalhadores. Agora, como deputado federal, após ter ocupado a vanguarda na resistência ao golpe contra a presidenta Dilma, se firmou como um pilar da legalidade democrática na Câmara dos Deputados e é um dos principais parlamentares na defesa do Lula. Sua voz hoje no parlamento é referência contra as atrocidades jurídicas da Lava Jato e o Estado de exceção no qual está mergulhado o Brasil pós-golpe, sempre apontando a urgência do resgate da democracia.

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